Contos Extraordinários - A Noite do Pesadelo - Dicas para Pais e Educadores
Contos Reflexivos para todas as Idades

A Noite do Pesadelo

“Sem um hospedeiro que o faça sentir-se vivo, o medo não passa de um conceito imaterial sem sentido...”

A Noite do Pesadelo

Parece que o maior pavor humano ainda é o medo irracional de qualquer coisa que sua ciência não seja capaz de explicar...

No escritório improvisado num pequeno cômodo à frente do seu quarto de dormir, planejara trabalhar até tarde da noite. Sua intenção era finalizar um importante e urgente projeto o mais rápido possível. Mas, incapaz de resistir ao pesado sono que tornara sua vigília um verdadeiro martírio, contrariado e frustrado, decidiu ir deitar-se. Nem escovou os dentes ou trocou de roupa, não deu tempo, simplesmente desabou sobre a cama e apagou, sem nem ao menos tirar os sapatos.

Não sabe exatamente quanto tempo dormiu, mas, de repente despertou com a viva impressão de que alguém o chamara pelo nome. Nada de anormal, se não estivesse sozinho em casa.

Abriu os olhos e permaneceu deitado na mesma posição, imóvel, olhando em direção à porta do quarto que estava aberta, com a clara sensação de que por ali, a qualquer momento, iria entrar uma pessoa cujos passos apressados ele podia escutar a percorrer o pequeno vão que ligava a sala principal da casa ao pequeno cômodo à frente do dormitório.

Cessaram os passos e não entrou ninguém. Ao invés disso, tudo mergulhou num grande e pesado silêncio, razão pela qual duvidou se de fato ouvira mesmo alguma coisa.

O pequeno cômodo à frente do seu quarto era um espaço discreto, mas suficiente para abrigar uma pequena mesa, três cadeiras de palhinha, uma acanhada estante com seus livros mais preciosos e seu escritório. Também era usado como sala de jantar, ambiente de estudo, ou para reuniões informais com os amigos.

Um problema de claustrofobia o obrigava a dormir com a porta do quarto sempre aberta. A luz daquela pequena sala, que sempre ficava acesa durante toda noite, lhe proporcionava à sensação de ambiente aberto aliviando sua fobia de lugares fechados. Vinha de lá o barulho de pratos e talheres sendo recolhidos e sugerindo que alguém acabara de servir-se e se preparava para deixar a mesa.

Através do umbral da porta, sem sair da cama, era possível enxergar claramente parte do pequeno cômodo à sua frente, por isso tinha certeza de que o ruído de uma das cadeiras sendo arrastada insinuando que o visitante levantara-se da mesa vinha de lá. Tinha certeza porque além do ruído da cadeira, também viu parte de uma sombra humana projetada na parede. Viu a sombra, mas não o seu dono.

Seu coração bateu forte e uma sensação de frieza percorreu seu corpo. Esfregou os olhos para certificar-se de que não se tratava de uma alucinação própria do seu estado de hipnagogia, e ao olhar outra vez viu que a sombra sumira, assim como todos os ruídos.

Eis o motivo pelo qual, uma vez mais, duvidou se realmente vira ou ouvira alguma coisa. Ainda sonolento e imóvel na cama, até que poderia ficar especulando mais sobre o assunto, não fosse o repentino barulho de um objeto que se quebrara ao cair no chão da sala à sua frente.

Seguiram-se ruídos de passos descalços, apressados, que se dirigiam na direção do curto vão de quatro metros que ligava seu escritório improvisado à sala principal da casa. A forte e repentina dose de adrenalina injetada em sua corrente sanguínea deixou-o meio zonzo e ansioso. Seu coração estava acelerado e momentaneamente ficou sem ação.

E como seu cérebro não era capaz de decidir se simplesmente trancava a porta do quarto ou iria examinar o que estava ocorrendo lá fora, ficou imóvel como estava. Reagiu e correu até a janela por onde pensou em pular e sair correndo. Mas, o ferrolho estava travado e a última coisa que desejava naquele momento era fazer algum tipo de barulho. Por isso resolveu não mexer em nada.

Imaginava quem poderia ser aquele suposto visitante noturno e qual poderia ser sua intenção. Ficou andando em círculos sem sair do lugar e sem saber o que fazer. Seus pensamentos estavam confusos e sua musculatura parecia entorpecida. Impossível era descrever o que sentiu quando o telefone da sala tocou.

Mas, estranhamente e inesperadamente, de forma súbita, um indecifrável ímpeto de coragem tomou conta de sua razão. Correu para fora do quarto disposto a resolver de vez aquele impasse. Já no cômodo à frente do quarto, ao olhar para o corredor que conduzia à sala principal, viu que ela estava envolta por um clarão de um azul pálido que variava de intensidade a pequenos intervalos de tempo. Isso só podia significar uma coisa: a televisão estava ligada.

Devagar, prendendo a respiração, na ponta dos pés e se escorando na parede, caminhou em direção à sala principal. Sentiu o sangue gelar nas veias, e uma vez mais, um grande vazio à boca do estomago seguido por um longo calafrio. O ruído das molas da poltrona da sala era um indício claro de que alguém estava naquele recinto.

E à medida que se aproximava da sala, mais pesadas ficavam suas pernas. Atribuiu essa sensação ao tamanho da sua ansiedade, afinal de contas, não sabia o que iria encontrar mais adiante. No entanto, apesar do receio, estranhamente não sentia vontade de recuar; na verdade, mais parecia que estava sendo atraído naquela direção. Quase no limiar da entrada da sala, resolveu parar um pouco para examinar seu estado de espírito.

O rangido das dobradiças de uma porta sendo aberta e a logo após uma batida indicando que fora fechada, o fez imaginar que o misterioso visitante percebera sua presença e fugira do local. Pulou para dentro da sala, e de fato, ali não encontrou ninguém. Viu que a televisão estava ligada, assim como um pequeno prato de petiscos e uma xícara de chá sobre a mesinha ao lado da poltrona. Correu para acender a luz do recinto, mas o interruptor não obedeceu.

Abriu a porta da frente e viu que ainda era noite, e foi nesse momento que começou a chover forte lá fora. Seguiu-se um demorado raio, e ao som do primeiro trovão, acordou bruscamente com a nítida sensação de que alguém o chamara pelo nome...

Então, abriu os olhos e permaneceu deitado na mesma posição, imóvel, olhando em direção à porta do quarto que estava aberta, com a clara sensação de que por ali iria entrar, a qualquer momento, uma pessoa, cujos passos apressados ele podia escutar a percorrer o pequeno corredor localizado do lado de fora do recinto.

Moral da História:
Se para o homem e sua ciência a essência da vida é um completo mistério, o desconhecido é um fato...

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