Artigos para Autorreciclagem

O Princípio da Burrice Social não Disfarçada

O progresso consciencial humano parece limitar-se a capacidade de organizar seus problemas de modo a nunca perdê-los de vista...
"O estado de Atenção, quando se faz presente, faculta ao indivíduo perceber o tamanho da sua desatenção..."
O Princípio da Burrice Social não Disfarçada

Incapaz de separar o inútil do útil, o excesso de informações não torna o homem mais inteligente, apenas mais ocupado e cada vez mais confuso...

Examinando a Questão...

Conta-se que um burro, animal de carga acostumado às longas caminhadas, depois de mais uma parada para um breve descanso no sopé de uma íngreme e esburacada trilha, disse para um dos seus amigos da caravana: “Eu não consigo entender se o sofrimento vem antes ou depois do descanso...”

Quando o homem começou a perder a capacidade de pensar racionalmente, um processo gradual e contínuo, que começou quando ficavam apreensivos procurando nos céus as pedras rolantes que deveriam cair após cada trovão, seu cérebro, por falta de uso, tornou-se preguiçoso, cada vez mais limitado, calcificado, sem criatividade, e paradoxalmente, presunçoso.

Daí sua incapacidade de pensar com coerência ou sensatez, de maneira profícua. Assim ele optou pelo processo da imitação, uma vez que é mais simples e seguro; dá menos trabalho, não o cansa e sequer precisa questionar a utilidade das orientações. Seu pensamento se tornou tão reduzido e minguado que ao planejar suas ações, dificilmente consegue levar em conta os efeitos colaterais ou secundários.

Por isso prefere remediar ao invés de prevenir. A prevenção dá trabalho, requer imaginação, organização, planificação, e o pior de tudo, exige uma coisa que ele não sabe fazer, ou seja, pensar por conta própria com lógica, reflexão, ordem, disciplina e ponderação. E ao perder sua disposição para duvidar das coisas, o homem contemporâneo se distanciou ainda mais de sua conquista psicológica mais importante, ou seja, o florescimento da inteligência.

Aliás, a inteligência, ao contrário do dinheiro, saúde ou bens materiais, tem como característica uma peculiaridade: quanto mais você a perde, menos dá por sua falta.

Afinal de contas, o que vem primeiro, o Pensamento ou a Inteligência?

Lembrando sempre que o ato de pensar, o ordinário, é um processo involuntário. Ocorre com ou sem o consentimento do seu dono. Na dúvida basta tentar fazer uma greve de pensamentos, ou seja, ficar um dia inteiro sem pensar. Mas, embora seja uma ocorrência involuntária, ele pode ser direcionado. Direcionado quer dizer: podemos escolher sobre o que estamos pensando, embora não sejamos capazes de evitar que o fenômeno do pensar venha a ocorrer.

Por isso não é possível evitar, por exemplo, de ficar pensando naquela música que grudou nas paredes do seu cérebro, da qual nem após um ritual de autoflagelação consegue se livrar. E de repente, independente de sua vontade, lá está ela a reverberar dentro de sua cabeça, cantarolando sozinha, como se fosse uma entidade viva, uma espécie de vírus musical de existência autônoma, cujo antídoto, na maioria das vezes, é a sobreposição por outra modinha ainda pior.

Conclusão: para pensar não precisamos de inteligência, basta possuir um cérebro com algumas lembranças lá dentro. Agora, para ordenar, organizar, disciplinar e direcionar de maneira consciente e positiva os pensamentos, para isso, a inteligência é um atributo imprescindível.

Isso implica em dizer que, para pensar com inteligência, a qualidade das nossas memórias ou lembranças, é o que fará a diferença. Ou seja, um cérebro repleto de bobagens é incapaz de elaborar um pensamento proficiente. Em outras palavras, isso quer dizer que a boa cognição determina o status, o valor, utilidade e a qualidade dos nossos pensamentos.

É nesse ponto que a nova pedagogia consegue superar a geração anterior. Afinal de contas, em nosso tempo, o novo modelo educacional – na verdade uma colcha remendada com retalhos desgastados de diferentes tecidos – conseguiu a proeza de piorar ainda mais aquilo que já era precário.

E o modelo se espalhou como praga viral, contaminando tudo, redações, redatores, intelectuais, políticos, livros, revistas, a mídia virtual, impressa e falada, criando uma nova mentalidade; uma nova identidade cultural. E ali o culto às coisas inúteis e a estupidez se tornou uma verdadeira doutrina; uma ideologia, uma espécie de peregrinação sagrada, a ferramenta perfeita nas mãos dos cultuadores da ignorância. E tudo isso de modo a não permitir que seus seguidores aprendam a pensar com lucidez, de modo inquisitivo, por vontade própria.

Por isso reescreveram às pressas o antigo conceito de inteligência e logo cuidaram de espalhar a boa nova entre seus indiferentes súditos. Assim, agora, inteligente é aquele que prefere remediar ao invés de prevenir, ou que atribui à vida um valor como se fosse um produto ou commodity.

Por que será que os comportamentos patológicos são tão resistentes às mudanças?

Assim, após beber com moderação, dirige embriagado e se acha superior porque conseguiu driblar os bloqueios policiais equipados com bafômetros – pequeno aparelho usado para medir a quantidade de álcool no sangue do indivíduo. Na verdade, na sua cabeça, esse gesto reflete uma evidência inquestionável de sua grandeza intelectual e consciencial. Afinal de contas, ele está praticando o primeiro preceito do novo conceito de inteligência homologado pelo modelo pedagógico em uso: Leis só têm valor quando ele está no papel de vítima.

E, para comemorar a proeza, ele mutila o próprio corpo, um gesto que, segundo a nova cartilha pedagógica, lhe confere um status diferenciado dentro daquele meio social. Assim, ao exibir-se publicamente, já que a única função prática da automutilação é o exibicionismo, ele cria uma identidade segregada das demais, a exemplo de grupos nacionalistas ou étnicos, ideologias radicais, ou das doutrinas religiosas antagônicas entre si.

Eis o resultado da nova pedagogia patológica, onde o racismo é tratado com um remédio que ao invés de curar o comportamento insano do preconceituoso cuida de nunca permitir que as feridas cicatrizem. Por isso aceitam privilégios diferenciados que ao invés de compensarem injustiças do passado, consolidam as diferenças, de modo que se perpetuem.

E nesse novo sistema educacional, onde aprender a aprender é visto como uma espécie de pecado capital ou infâmia, destruir é sinal de inteligência, enquanto que construir é um gesto herético ou patético. Assim, os políticos corruptos proliferam como fungos na pele dos leprosos não cuidados, enquanto os telespectadores apáticos, diante de seus aparelhos de TV, vivem o drama dos personagens virtuais de sua trama novelesca ou Realities Shows, e sempre a espera de orientações para direcionar seu viver.

E acomodados em seus cativeiros, indiferentes ao destino aguarda a todos, ainda acreditam que o capataz encarregado de conduzi-los ao matadouro é na verdade uma espécie de emissário divino, encarregado que foi de escoltar ao paraíso a leva de escolhidos, para que, finalmente, se cumpra a profecia.

Leia Também...