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Como Fisgar Novos Consumidores - A arte da Indução ao Consumo Compulsivo

Quando foram criadas as atrações infantis para a TV com a intenção de vender brinquedos, a indústria logo descobriu que podia criar novos desejos e depois atendê-los, numa cadeia cíclica e renovável, aparentemente sem fim...
Técnicas Secretas do Marketing para Fisgar Novos Consumidores

Incapaz de separar o inútil do útil, o excesso de informações não torna o homem mais inteligente, apenas mais ocupado e cada vez mais confuso...

Examinando a Questão do consumo...

“A maioria das mudanças no design do novo produto não é feita para melhorar coisa alguma, mas apenas para tornar o modelo anterior obsoleto...”, Comentário de um fabricante de produtos eletrônicos numa reunião com engenheiros para a elaboração de um novo projeto.

Quando foram introduzidas as atrações infantis para a TV com a intenção de vender brinquedos, a indústria logo descobriu que podia criar novos desejos e depois atendê-los, numa cadeia cíclica e renovável aparentemente sem fim...

Se as posses significam mais para o indivíduo do que ele próprio, isso quer dizer que ele estará disposto a qualquer sacrifício para mantê-las sob sua guarda. Se o desejo de tornar-se importante tem o poder de mover o homem em qualquer direção, é de vital interesse dos grandes grupos, na promoção de suas marcas e artefatos, induzir o consumidor a acreditar que cada aquisição, por reflexo, o torna grande, distinto e poderoso, a exemplo da força e reputação que já possui aquela corporação por trás da grife estampada em seus produtos.

E saindo das lojas, temporariamente feliz, irá retornar à sua casa, mas agora com o firme sentimento de que a posse daquele bem é capaz de lhe conferir um status exclusivo e melhorar sua força presencial dentro do seu grupo social, casta ou bioma mesológico.

Formar novos consumidores é relativamente simples, uma vez que as grandes corporações conhecem todas as carências e dobras internas das personalidades dos seus clientes ou cativos. Não existe segredo, uma vez que cada um daqueles cérebros, agora recheados com uma lista de desejos impossível de ser atendida, foi lavado e depois cuidadosamente reprogramado exatamente por seus técnicos propagandistas, mestres na ciência da neurolinguística ou da manipulação mental.

E doravante esse consumidor sequer terá uma identidade original ou vontade própria. Mas será induzido a acreditar que tem. O engenho publicitário faz isso como ninguém; é mestre em recondicionamento ou reprogramação cerebral. E diante de um sujeito inseguro e carente até da própria identidade, dispõe dos meios necessários para massagear sua autoestima. Sabe o quanto ele estará disposto a pagar para sentir-se importante e longe do fantasma do ostracismo social. Mas, não apenas isso, afinal de contas, dispõe de um sofisticado acervo de técnicas capazes de manter o infeliz consumidor sob suas rédeas pelo tempo que julgar necessário.

Especialista em criar ilusões não alcançáveis, a publicidade se utiliza da mesma estratégia já adotada ao longo dos séculos pelos grupos sectários, onde a promessa de dias melhores está condicionada à crença de que sacrifícios pessoais e fidelidade com a marca são quesitos necessários e inegociáveis.

Num mundo onde a vida alheia parece ter mais importância que a própria, o exibicionismo torna-se então um fator dos mais relevantes na arte de criar, manter e potencializar novos hábitos. Mas, não basta criar um novo hábito, é necessário que ele se renove periodicamente para não perder sua força. Depois de formado, quando se constata que já está consolidado como uma necessidade, ele ainda poderá se desdobrar em outros, criando novos e potenciais nichos consumidores.

O Poder da Indução...

Um consumidor não é ninguém se não comprar. Assim, ele precisa ser lembrado desse fato sistematicamente, e isso é uma tarefa das mais simples para quem conhece todo o mecanismo psicológico do homem fantoche, um sujeito que perdeu a capacidade da reflexão voluntária, preferindo ser conduzido e mimado por terceiros, uma vez que a autocondução demanda muito esforço.

Para as grandes corporações que têm no lucro das vendas dos seus produtos uma espécie de ópio, o ganho é o termômetro do seu sucesso. No entanto, não estão interessadas em solucionar questões fundamentais e necessárias que poderiam ajudar o homem a se transformar em algo melhor, e sim em torná-lo ainda mais dependente do poderoso e fascinante culto às coisas inúteis.

Se a aparência ou o estilo de qualquer coisa, para a maioria das pessoas representa um ativo que dá importância às suas vidas, a publicidade reforça essa crença quando promete a cada indivíduo objetivos de vida semelhantes aos existentes nas tramas dos contos de fadas. Um oportuno reforço na ideia de que qualquer demanda criada pela imaginação é possível de ser suprida.

Mas não basta, por meio de criativas abordagens publicitárias, seduzir o indivíduo que se tornará em um novo consumidor, é necessário que o mesmo se torne um aliado da própria indústria; um elemento propagador ou parceiro, capaz de divulgar sem custos e de maneira voluntária, embora de modo inconsciente, aquela marca, grife, tendência ou ideia com a qual acaba de se identificar.

O sentimento de inferioridade é sem dúvida um dos mais indesejáveis travões na vida de alguém sem objetivos existenciais concretos, e tem um efeito singular especialmente entre os mais jovens, onde a busca por afirmação pessoal torna-se uma peregrinação ou jornada mítica digna de esforços além da compreensão ordinária. Assim, no processo de aliciação de novos consumidores entre os mais jovens, os propagandistas usam com invejável maestria esse argumento.

A ânsia de ser o primeiro a possuir aquela novidade torna-se então uma verdadeira obsessão na vida de cada um deles. O pavor de ser deixado para trás obriga-o a tornar-se um consumidor voraz e compulsivo diante dos novos modismos.

Manipulados versus Acomodados...

O problema é que só raramente nos damos conta do quanto somos manipulados. Na verdade isso não nos interessa; não temos interesse em coisa alguma. Não o interesse voluntário, aquele nascido de nossa vontade lúcida. Na verdade não temos lucidez nem vontade própria. A escola da vida não nos ensina isso; mas ensina como viver sem precisar disso.

Ser conduzido é mais cômodo; requer menos esforço e responsabilidades. Ser responsável por nossos atos nos amedronta; daí a preferência pelas fórmulas prontas, as franquias ou caminhos já traçados, assim como o arrimo de guias já consagrados. Em nossa vida, o circo midiático, faz tempo, cumpre o papel de nosso mentor espiritual.

Embora o mecanismo das novas necessidades tenha se especializado na promoção e campanhas para vendas de produtos duráveis, também faz excursões no campo das aquisições imateriais, a exemplo de ideologias, crenças radicais, paranóias e demais condutas nosográficas. E o principal objetivo não é transformar o homem em algo melhor, e sim de torná-lo cada vez mais dependente e perpetuar sua ignorância.

É preciso grande atenção e cuidado com os nossos jovens e crianças. Educar é antes de tudo formar um jovem capaz de questionar se aquilo é de fato uma necessidade ou um simples, fútil e oportunista modismo. Explicar desde cedo o que de fato é uma necessidade torna-se uma função essencial no magistério de cada pai ou educador, mesmo que o processo do uso racional da dúvida ainda não faça parte do repertório cognitivo pessoal desses pais e educadores.

Devemos começar em casa com aquele sujeito que está diante do nosso espelho. Apenas com ele podemos efetivamente aprender sobre nossos hábitos de consumo, onde se incluem as carências concretas e as abstratas.

Rever e avaliar o tamanho da influência que exercem sobre nós as superstições, crenças patológicas, manias e alienações ideológicas, este é sem duvida o ponto de partida. Feito isso, inspirados em nosso modelo de conduta, por meio do exemplo, será possível que nossos filhos, educandos e amigos mais próximos, sejam capazes de vislumbrar uma nova mentalidade em ação; um modo de vida mais criativo e edificante.

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