Artigos para Autorreciclagem

O Poder de Indução da Máquina de Vender Inutilidades

Somos convencidos a consumir o que não precisamos e depois persuadidos a acreditar que fazemos isso porque essa é a nossa vontade...
O Poder de Indução da Máquina de Vender Inutilidades

"O Cúmulo da Ignorância consentida é quando precisamos de justiça para nos obrigar a cumprir com nossos deveres..."

A Origem do Homem Problema...

Um Conto Reflexivo: Um avarento, sem querer, deixou cair uma moeda de ouro nas águas profundas de um lago, ao que exclamou: "Pelo menos aí ninguém mais poderá te tocar..."

Parece que quanto mais tecnologicamente progredimos, no lastro desse progresso, mais problemas são criados. Nesse caso, trata-se de um pseudoprogresso, uma vez que Prosperidade com ressalvas ou efeitos colaterais negativos não pode ser uma evidência concreta de evolução ou progresso.

E embora possamos nos iludir com as aparências de vitrines cada vez mais requintadas e com isso acreditar que estamos avançando, psicologicamente, continuamos tão primitivos quanto nossos ancestrais das cavernas, quando os dias eram pontuados pelas superstições e o medo da noite.

Então, triunfalmente, surge em nossos dias o homem problema. Não um homem sujeito à ação dos problemas, mas um homem gerador de seus problemas, uma vez que, conforme demonstra, não mais é capaz de viver sem eles. Eis a síntese do homem que hoje somos: uma fonte permanente de problemas.

Mas não porque sejam necessários ao nosso viver, e sim porque se tornou a principal engrenagem e o mais importante ativo financeiro da moderna civilização. E assim, além de se comportar como viga de sustentação para manter viva a estrutura social, os problemas põem em movimento as engrenagens econômicas e sociais de todas as nações desse mundo.

Por isso o esmerado esforço das instituições sociais quando vão a campo numa espécie de cruzada santa, cuidando para que os problemas não sejam erradicados, mas, ao invés disso, multiplicados. E enquanto seus cientistas não encontram um meio para torná-los insolúveis, os gestores sociais se encarregarão de criar novas fórmulas capazes de fortalecer os antigos de modo a não perdê-los de vista.

Isso talvez explique o motivo pelo qual a maioria das soluções para os nossos problemas têm sempre como objetivo a criação de outros mais consistentes. Mas isso pouco importa, pois na mesma proporção em que são criados, há uma sofisticada máquina encarregada, não de tentar erradicá-los, mas de suavizá-los com sofisticados remendos, por definição, mal feitos, e como não poderia deixar de ser, fabricados com material de segunda.

E traçamos tantas metas e resoluções para nosso futuro que logo a ideia de uma vida adicional para a conquista de todas elas se mostra como uma proposta bastante atraente e ponderável. Enquanto isso nossas preferências e carências mudam no mesmo ritmo das tendências do marketing de vendas das grandes corporações ou grupos comerciais./p>

A Ilusão dos Sonhos Inalcançáveis...

Daí a imensa importância que a religião passa a ter em nossas vidas. Afinal de contas, com tantas pendências em nossa pauta de reivindicações, para suprir a todas, não há outra saída senão a interferência direta de uma instância divina. São tantas, e a cada novo dia, um novo projeto entra na pauta. E uma vez mais, se tornam carências, que se manifestam em nosso corpo como patologias, cujo remédio é dispor de crédito para comprar mais.

Quando avaliamos as causas de grande parte do nosso sofrimento psicológico, onde estão incluídas nossas tristezas ou alegrias, certamente que carências consumistas não são novidades. E assim como há um evidente temor de que todos os nossos desejos não sejam supridos, há também o receio de perdermos aquilo que já conquistamos.

A sociedade nos oferece a possibilidade de sonhar com aquilo que gostaríamos de ser e ter, e raramente de nos conformarmos com aquilo que verdadeiramente somos e temos. Ela nega que somos suficientes para nós mesmos; que podemos ser felizes com o factível; com aquilo que está ao nosso alcance. Pior é quando aceitamos a provocação da possibilidade da conquista do inconquistável, um potente combustível que alimenta nossas maiores angústias e frustrações.

É fascinante a possibilidade da conquista do impossível; do sonho que nunca foi sonhado antes; da transformação do mundo onde vivemos de acordo com nossa vontade e feição, através da força, poder e competição. A competição nos induz a acreditar que superior é todo aquele que chega à frente usando seus concorrentes como degraus ou escada.

E já na primeira infância nosso temperamento é lapidado a partir de nossas emoções. Enfatiza-se o emocional e ignora-se o racional. O emocional potencializa o Ego, uma entidade virtual cujo Modus Operandi é a predisposição inata para classificar os verbos sempre na primeira pessoa.

Se somos insuficientes para nós mesmos, lá estarão os agentes do consumo com suas soluções mágicas, e o mais importante, com uma disposição ímpar para resolver qualquer frustração humana, a exemplo de uma espécie de cruzada filantrópica ou brigada santa que agora assume o papel de um guia capaz de dos mostrar o caminho da felicidade.

Com as modernas técnicas de condicionamento em massa, cujo processo dominam com perfeição, nos guiarão com o mesmo cuidado que teriam com bichinhos amestrados. Cuidarão das nossas aspirações realçando todas as nuances do nosso querer, nutrindo nossa esperança no inalcançável. E a razão de tudo isso? Dar vazão aos produtos que saem de suas linhas de produção. Para as grandes corporações, o ato de vender tem a mesma motivação que teria um brinquedo novo para uma criança carente. O lucro é a menor das atrações, enquanto que a sensação de controle, a mais relevante.

Soluções para qualquer problema existencial do homem é tudo que alegam ter. Mas se engana quem pensa que estão interessados em nossa qualidade de vida. Pelo contrário, seu interesse é criar dependências ou necessidades inexistentes. Razão pela qual o processo de lavagem cerebral, sempre feito de forma discreta, silenciosa, começa tão cedo. É como o veneno que mata aos poucos, proporcionando à vítima uma agradável sensação de bem estar após cada dose ingerida.

Pensando Fora da Caixa...

Se por trás do ideal de sucesso não existisse os fracassados, eles estariam em apuros. O uso adequado das palavras, a exemplo de comandos chaves de grande efeito psicológico, sempre funciona bem nas mãos dos hábeis propagandistas, tornando a reprogramação cerebral uma coisa trivial.

De olho no desejo não revelado que existe dentro de cada indivíduo de tornar-se importante, criaram um protocolo social conhecido como Status. Sua função dentro do marketing de vendas? Suprir essa grande carência humana, ou seja, criar os meios necessários para que o indivíduo seja capaz de conquistar seu pedigree se destacando em meio aos demais, e sempre a partir da ostentação. Um enquadramento apenas acessível após a conquista de certos atributos ou símbolos possíveis de serem comprados.

Conhecedores profundos do tamanho do vazio existencial de cada homem, já que a maior parte desse repertório de angústias saiu de suas linhas de produção, reduziram a vontade de viver ao simples desejo de comprar, ter e acumular. Daí a importância da criação de objetivos móveis, voláteis, renováveis, metas desnecessárias e evidentemente intangíveis.

Ser útil é sentir-se livre; livre para fazer o que demandaria nosso discernimento, caso tivéssemos algum. Ocorre que não o temos. Nosso modelo de discernimento também é uma cria das centrais de condicionamento enclausuradas dentro de cada mesologia. Não há saída; sua influência ou tentáculos estão por toda parte, desde as prateleiras dos supermercados até o interior dos locais destinados à nossa reflexão espiritual.

E o ato de refletir tornou-se coisa rara. Agora o sujeito é incitado a agir sem pensar, e por isso compra sem precisar, na ânsia de suprir necessidades que não existem. Sem objetivos de vida consistentes e verdadeiros, esse homem condicionado só é capaz de aspirar uma coisa: descobrir antecipadamente onde e quando ocorrerá a próxima grande liquidação.

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